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Regressão de Idade: Como os hipnoterapeutas a utilizam

Era uma bela manhã de sábado quando Ana Paula manda um “WhatsApp” para mim, com a pergunta mais repetida do século: “Rafael, você faz regressão?”

Por que raios todo mundo acha que hipnose é uma “regressão”?! Será que as pessoas, em pleno século XXI, ainda acreditam que os hipnotistas são seres cósmicos com o poder de viajar no tempo?

É… Por mais que isso soe estranho, muita gente acha que a hipnose é a chave para um mundo astral onde viajaremos com a mente para uma era remota que “justifique” todo o sofrimento atual.

No caso da Ana Paula, uma jovem dona de casa com apenas 35 anos e dois filhos, ela queria “saber o porquê da sua tristeza matinal”. Achava que não tinha razão para sofrer, já que sua vida era tranquila, tinha estabilidade financeira e filhos lindos e inteligentes.

Mas todo dia de manhã era um inferno. Ela demorava para acordar e, quando saía da cama (lá pelas 10h da manhã), levantava com mau humor, apática e lenta. Só ficava “normal” após o almoço.

Para facilitar a comunicação, marcamos um horário em meu consultório e ali, Ana pôde explicar o conflito em casa, a decepção consigo mesma por largar a faculdade para cuidar dos filhos e outras coisas relacionadas a autoestima e religião.

Desmistificando a hipnose

Precisei explicar que a hipnose é apenas a característica que a mente humana tem de imaginar algo e sentir, que aquilo não tem nada a ver com religião ou misticismo, pois imaginar uma escada ou alguém feliz, inclusive, não vai contra qualquer religião ou credo.

“Tá, Rafael, entendi que não vou ficar presa em hipnose ou fazer coisas contra a minha moral, pois se trata de eu mesma me sugestionando. Agora, vou conseguir lembrar de tudo o que aconteceu no passado?”

Essa é uma dúvida muito comum, principalmente porque nós, ocidentais, temos a grande necessidade de conhecer, controlar e manipular tudo a nossa volta. Fomos ensinados desde cedo que o pensamento analítico, consciente e controlado é uma coisa “bonita” e que sentir emoções e sentimentos como raiva, medo, inveja ou ciúmes são coisas ruins e que devem ser evitadas a todo custo.

Graças a isso, aprendemos desde crianças a engolir nossos sentimentos e enterrá-los sob os escombros da cultura, comida, jogos e prazer desenfreados, na tentativa falha de sermos pessoas “evoluídas, cultas e civilizadas”. Só que nosso animalzinho interior fica lá dentro, revoltado e pulando com cada vez mais energia.

Assim, expliquei-lhe que nossa mente não é tão “concreta” e não se liga aos objetos e fatos em si, mas aos sentimentos que imprimimos a eles. Um exemplo simples (e convido você a escrever aqui nos comentários a sua resposta): o que é mais fácil de lembrar, do almoço de ontem ou de um jantar especial que aconteceu anos atrás como, por exemplo, da sua festa de casamento?

mulher pensando no que já aconteceu

Fatos x Emoções

Assim como a maioria das pessoas, Ana Paula lembrava com muito mais facilidade do jantar que aconteceu dez anos antes, na festa do seu casamento feliz, do que do que comeu ontem ou no café da manhã de hoje.

E o motivo é muito simples: aquele jantar de anos atrás tem um impacto emocional muito mais forte e, por isso, a mente se apega a estes eventos com total intensidade.

Durante a hipnose, como estamos mergulhando em nossa mente subconsciente, estamos lidando com o “universo das emoções” e não é exatamente um evento qualquer que procuramos, mas principalmente a emoção associada a ele.

Assim, como hipnoterapeuta, meu papel é ajudar o subconsciente a extravasar aquela emoção, e quando isso acontece, a mente consciente da pessoa tem acesso a todas as informações associadas àquele evento.

No caso da Ana Paula, assim que ela entrou em sonambulismo (um estado de hipnose de alta receptividade e resposta, não tem nada a ver com o problema do sono), eu procurei estabilizar aquele estado de percepção com as seguintes palavras:

“Ana Paula, eu sei que ao longo da vida a sua mente subconsciente aprendeu inúmeras coisas. Algumas lhe trouxeram alegria e sucesso, outras lhe trouxeram sofrimento e tristeza. E eu sei que em algum momento, o sofrimento que você sente ao acordar todos os dias de manhã foi aprendido pelo seu subconsciente.”

Gosto de iniciar o processo de regressão de idade assim, “climatizando” o subconsciente da pessoa. Isso facilita muito o acesso porque já transmite a ideia de que vamos trabalhar através de um processo diferenciado, que envolve entender o passado sobre alguma coisa que está acontecendo hoje.

menina em profunda concentração

Hipnoanálise e Regressão de Idade

A isto nós chamamos de hipnoanálise, onde vamos “vasculhar” o subconsciente atrás de uma informação. Para isso podemos utilizar duas abordagens simples, chamadas de regressão direta e regressão indireta.

Na regressão direta, nós vamos levar uma pessoa a um ponto específico, por exemplo, o primeiro dia em sala de aula. Já na regressão indireta, iremos procurar não um evento específico, mas uma emoção ou aprendizado, e isso pode acontecer em qualquer período da vida da pessoa – e nós só saberemos disso quando chegarmos lá por meio da regressão.

No caso da Ana Paula, como eu estava querendo entender o porquê de todo aquele sofrimento, decidi usar a regressão indireta, que me conduziu a um momento onde, aos cinco anos de idade ela está no quarto, sozinha, enquanto seu pai chega bêbado de manhã e violenta sua mãe no quarto ao lado.

Bem, o que isso tem a ver com o problema atual dela? Diretamente nada, mas no momento em que o subconsciente percebeu, em sua fase adulta após o casamento, onde ela se sentia cada vez mais triste e frustrada com o que estava acontecendo em sua vida, um gatilho de “proteção” foi acionado lá dentro e, de repente, ela queria se manter na mesma forma segura que tinha funcionado décadas atrás.

Um processo estranho

Você acha isso estranho? Confesso que eu também (ainda) acho estranho.

Já atendi algumas milhares de pessoas e, até hoje, fico admirado com a capacidade que nossa mente tem de subentender fatos de uma maneira totalmente rápida, intuitiva e totalmente “ilógica”.

Digo isso utilizando aspas justamente porque o subconsciente tem a sua própria lógica e interpretação dos fatos, algo que nossa mente adulta e consciente vê de maneira totalmente inversa às vezes.

Obviamente que a hipnoterapia com a Ana Paula não foi apenas a regressão e não somente aquele evento em si, mas hoje meu foco é compartilhar com você sobre esta ferramenta incrível que ainda choca as pessoas.

Talvez você esteja se perguntando se realmente aquele evento foi real, se não foi uma invenção da mente dela, uma falsa memória implantada em algum momento da vida (ou da hipnose).

Quanto ao assunto de aquilo ter sido real ou não, lembre-se que nossas memórias nunca são, de fato, reais. O que nós estamos fazendo a todo instante é recapturar informações do passado e interpretá-las. Talvez, de fato, aquele abuso nunca tenha acontecido, mas para uma criança de apenas cinco anos de idade, o SOFRIMENTO foi real.

Perceba que o meu objetivo não é “ver” o que está acontecendo ali dentro, mas entender o porquê de um sofrimento emocional repetido por décadas. Mesmo que uma regressão aparente ser imprecisa, ainda assim o foco será outro – a não ser, é claro, que eu esteja ajudando uma pessoa a procurar as chaves da casa.

pessoa entrando em contato com seus sentimentos

Reeducar o sistema

Quando estou com meus clientes em hipnose, o meu objetivo é ajudar a emoção a extravasar e com isso informações e memórias surgirem, embora o foco não seja a memória em si, mas o sentimento associado. Dentro um setting terapêutico, nós trabalharemos para que aquela emoção seja compreendida e tenha um novo direcionamento, permitindo que a pessoa possa ter um novo padrão em sua vida.

A isso eu chamo de reeducação do sistema ou reeducação do subconsciente. O objetivo não é apenas ressignificar uma informação, mas ajudar na psicoeducação daquela pessoa.

Essa é uma das razões pelas quais não deixo o cliente, antes da hipnose, perder seu tempo falando sobre o problema. Embora isso pareça grosseria, principalmente para aqueles adaptados a modelos de psicoterapia “conversacional”, tudo o que o cliente fala em vigília (não estando em hipnose) sempre será uma mentira ou interpretação racional – e principalmente sobre eventos recentes – e nunca a verdade emocional oculta nos padrões que se repetiram e se transformaram ao longo da vida de uma pessoa.

O que realmente importa em um processo de regressão é a pessoa apenas seguir as instruções e se permitir ser conduzida pelo hipnotista.

E assim como a Ana Paula, após aquela sessão de quase duas horas de hipnoterapia, onde trabalhamos diversos processos e eventos (não apenas a regressão de idade), você também pode encontrar uma vida realmente SUA, e não de antigos padrões do subconsciente armazenados e repetidos ao longo de uma vida inteira.

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Hipnoterapeuta OMNI e orgulhoso em fazer parte do seleto grupo de instrutores com certificação internacional. É graduado em Administração Pública e possui pós-graduação em Psicanálise, e é pós-graduando em Neurociência Clínica. Apaixonado pela mente humana, vê em seu trabalho uma maneira de contribuir para um mundo melhor.

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