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Programação mental: liberte o seu filho com a hipnose

Já tinha pedido para ele lavar as mãos. Falei de novo e, na terceira tentativa, afirmei: “lave as mãos, dinheiro é sujo”. Hipnoterapeuta que sou, me toquei na mesma hora: o que esperar de uma criança que ouve, em casa, da própria mãe, que “dinheiro é sujo”?

Com essa reflexão, tratei, claro, de corrigir: “dinheiro é uma coisa muito boa, filho. Serve para a gente conseguir o que desejar e ainda ajudar os outros. O que eu quis dizer é que muita gente pega essas notas e, por isso, é bom se limpar depois de tocá-las. Só isso”. E ainda repeti: “dinheiro é uma coisa muito boa, filho”. Não queria nem pensar na possibilidade de instalar uma programação mental negativa em relação às finanças na mente do meu menino.

Foi a hipnoterapia quem trouxe, para a minha vida, uma ampla e permanente ponderação em relação ao tema da programação mental. Obviamente, o assunto se fez presente na maternidade, na educação do Joaquim, hoje com quatro anos, e na da Maria Teresa, com um ano e oito meses. Quero dar o meu melhor para que os dois cresçam livres, confiantes e seguros para seguir os caminhos que bem entenderem. Sem amarras, crenças limitantes, ideias pré-concebidas a respeito de si mesmos e do resto da humanidade.

Quem trabalha com hipnose clínica ajuda a transformar vidas a partir daquilo que está guardado no subconsciente. Dos traumas, dores, agressões, repressões, abandonos vividos ao longo da vida. De tantas crenças limitantes fixadas na mente das crianças desde cedo, por pais que muitas vezes não fazem ideia das consequências de seus atos e palavras.

programação mental dita para uma criança

Programação mental para fugir do sucesso

E assim surgem problemas como o das pessoas programadas para evitar o sucesso. É o caso do garoto que cresceu ouvindo do pai que “os ricos são desonestos” e que “somente os pobres terão acesso ao Reino do Céus”. Por mais talentoso que seja, esse indivíduo tende a se boicotar diante de situações como uma promoção no trabalho. Sem se dar conta dos motivos que o impedem de chegar lá, do quão enraizadas em seu subconsciente estão essas ideias.

Exemplos não faltam. Como o da mulher que nunca conseguiu levar adiante um relacionamento estável por ter passado a infância escutando a mãe dizer que “os homens não prestam”. Ora, se os homens nada valem, o que resta a essa pessoa senão procurar um parceiro que preencha esses requisitos? Um que se comporte como ela aprendeu que um companheiro se comportaria? A prova de que o tal “dedo podre” do qual tanta gente fala nada mais é do que uma crença limitante daquelas instalada no subconsciente.

Certa vez, li no livro Desbloqueie o poder da sua mente (Editora Gente), de Michael Arruda, sobre o caso real de uma senhora que sentia uma tristeza profunda com a proximidade do Natal. Se o calendário passava de novembro para dezembro, ela já se sentia para baixo, sentimento que só ia embora com a chegada do ano novo. Não havia, claro, explicação racional para aquela emoção e os comportamentos que vinham a partir dela.

Verdadeiramente, ela queria ser capaz de aproveitar as festas. O que a hipnoterapia revelou sobre essa cliente? Que, aos três anos, numa noite de 24 de dezembro, ela ficou profundamente abalada ao ver seus familiares mais próximos chorando a morte de uma de suas avós. Foi o suficiente para que, no subconsciente daquela menina, ficasse associada e gravada a noção de pesar naquela época do ano.

Amanhã vai ser outro dia

É impossível poupar os filhos do sofrimento. Por mais que a gente só queira proteger, faz parte da vida enfrentar a dor da perda de um parente querido, estar ao lado da mãe no caso de uma separação difícil, passar por um momento de aperto nas finanças da casa. É do jogo e as nossas crianças precisam saber que é normal ficar alegre ou triste.

A observação que coloco aqui envolve o debate sobre qual é o melhor modo de lidar com essas situações, ou seja, a forma mais benéfica de ensinar em vez de traumatizar, de limitar, de instalar uma programação mental equivocada. De deixar claro que o pior às vezes vem, mas que a gente pode e deve seguir adiante. Se hoje está ruim, amanhã vai melhorar. E assim seguiremos mais fortes. É a esse cuidado que eu me refiro.

Sleeptalk

Mas como exatamente é possível tomar cuidado com essas questões, com a programação mental instalada na mente dos nossos pequenos a partir dos princípios da hipnose clínica? Bom, além do básico, que é prestar atenção ao nosso próprio comportamento e às nossas falas, procurando fazer com que eles possam crescer confiantes, podemos usar algumas outras ferramentas simples, mas muito eficientes no cotidiano da família.

Uma delas é o chamado sleeptalk. Como o próprio termo em inglês indica, é o hábito de falar para a criança enquanto ela dorme. Existe mais de uma forma de usar a técnica, mas eu prefiro o formato no qual os cuidadores dão sugestões positivas na hora em que meninos e meninas estão começando a dormir.

Sabe aquele momento em que eles parecem meio no aqui e agora e meio no mundo do sono? Pois nesse ponto, peça que ele ou ela levante a mão. Mesmo nesse quadro de sonolência, o pedido é atendido. E chega a hora de falar. Escolha poucas frases, sempre curtas, afirmações positivas, e repita por dois ou três minutos. É o suficiente.

Faça isso todas as noites, se houver uma questão pontual a ser resolvida, ou eventualmente, naqueles dias em que tudo parece dar errado e a gente sente que precisa reforçar a autoestima dos nossos garotos e garotas. Faz muita diferença dizer, por exemplo, “você é muito amado”, “a sua família te apoia sempre”, “você vai acordar se sentindo muito bem amanhã”.

IMPORTANTE: evite as palavras não e nunca, o tom precisa ser acolhedor e “para cima”. Estamos falando de uma programação mental desejada, afinal de contas. 

No mais, vá ensinando o seu filho, aos poucos, a se sentir mais calmo a partir de ações simples, de brincadeiras como “fechar os olhos e ficar bem tranquilo vendo o mar”, como eu gosto de fazer com o Joaquim quando ele está acelerado demais. Dura segundos esse momento de serenidade, com os dois olhinhos cerrados, mas para mim toda grande jornada começa com um primeiro passo.

Um dia, quando for adulto e se sentir tenso e sob pressão, ele há de lembrar da voz dessa mãe que vos escreve. E, quem sabe, há de sentir algum alívio no peito só de parar um pouquinho para ouvir, dentro de si, o barulho das ondas quebrando, sem pressa, enquanto o sol brilha na praia.  

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Hipnoterapeuta OMNI e jornalista. É especialista em hipnoterapia para crianças (Hypnokids) e mulheres. Também é mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Defensora dos direitos da mulher, tem orgulho de ser uma das sócias da Fênix Hipnose Clínica, ajudando a combater desigualdades e fazendo do mundo um lugar melhor para nós todos.

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