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Idosos e Hipnoterapia

Existem especificidades para a atuação do hipnoterapeuta com a população idosa? A quais aspectos devemos atentar? Quais os desafios que a velhice impõe ao campo terapêutico?

O estudo do envelhecimento vem ganhando força nos últimos tempos. Em termos gerais, o aumento da expectativa de vida criou uma demanda de políticas públicas que contemplem a população idosa, o que motivou o fortalecimento desse campo de investigação.

Um dos principais aspectos levantados pelas pesquisas modernas é a mudança de um foco medicalizador para uma abordagem integralista. Velhice vem deixando de ser sinônimo de perdas e adoecimento. Passa a entrar em cena o conceito de curso de vida, em que se compreende o envelhecer como parte integral do desenvolvimento.

Da mesma forma como quando atuamos com segmentos populacionais em diferentes momentos do curso de vida, é importante atentarmos às particularidades do trabalho com idosos, para que qualquer processo terapêutico seja embasado nas particularidades das experiências dos pacientes.

Mitos que envolvem os idosos

Existem algumas ideias com relação a processos terapêuticos com pessoas idosas que precisamos desmistificar para garantir um melhor posicionamento clínico.

Algumas pessoas questionam a utilidade da terapia com idosos. Freud questiona em sua obra a funcionalidade da análise em pessoas na terceira idade pela fixidez do sujeito. O eco desses comentários fundados em preconceitos a respeito da velhice na época gera ruído entre terapeutas na modernidade. É importante resgatar aqui as possibilidades que um processo de debruçar-se sobre si e re-narrar a própria existência, retomando a dimensão desejada, podem trazer quando falamos de uma pessoa que tem um histórico de vivências bem definido.

Outro mito comum é a ideia de que a velhice, pelas consequências socioeconômicas, somáticas e de perdas, impedem as mudanças de acontecerem. Neste caso, é sempre importante relembrar que o sujeito, com todos seus processos, não envelhece – e as possibilidades de transformação dentro da terapia estão atreladas justamente às movimentações dessa dimensão subjetiva.

idoso com mãos entrelaçadas

Fonte: stevepb / Pixabay

Acessibilidade

Um ponto concreto de extrema importância quando falamos de processos terapêuticos com idosos é a questão da acessibilidade. Embora as especificidades como dificuldades de locomoção e outros aspectos não estejam necessariamente presentes – assim como também não são exclusividade da população idosa – , faz-se necessário planejar o conforto em caráter de previsibilidade.

Devemos considerar o nosso lugar de atendimento, se é adequado para receber pessoas que possam precisar de adaptações para o uso pleno do espaço, por exemplo. As cadeiras possuem uma altura cômoda para que o paciente possa se sentar e se levantar sem esforço? Da mesma forma, as demais instalações permitem que se circule com facilidade? Ou o seu espaço é estreito, com muitos móveis, tapetes que escorregam, com toaletes difíceis de acessar? Precisamos sempre olhar para essas possíveis dificuldades antes de um atendimento.

Você pensa onde irá se posicionar durante o atendimento? Pensa em alternativas caso a pessoa que você irá atender tiver alguma dificuldade de audição?

Quando falamos de acessibilidade, não nos referimos apenas ao espaço, mas a todos os fatores que podem interferir no processo terapêutico.

O tipo de vocabulário que você utiliza deve considerar os recortes específicos da pessoa idosa, assim como quaisquer outros recortes transversais que ela possa apresentar.

Da mesma maneira, o imaginário de pessoas de diferentes gerações com relação ao que é uma terapia e como ela deveria funcionar é diferente. Temos que estar prontos a ouvir e alcançar um nível de comunicação que permita que os processos aconteçam.

Demandas

Algumas temáticas são mais comuns nos relatos de pessoas idosas durante a terapia. A relação com a morte de pessoas próximas, a mudança dos papéis sociais nas relações familiares e de produção e as alterações físicas dentro do processo de envelhecimento aparecem como pano de fundo em grande parte dos relatos.

Queixas comuns que encontramos nesse tipo de pacientes podem ser listadas abaixo:

  • Isolamento
  • Sintomas depressivos
  • Insatisfações no campo da autoestima
  • Alteração no ciclo de sono
  • Medos com relação à possibilidade de institucionalização
  • Mudanças de mobilidade
  • Medos relacionados à aposentadoria e a possíveis mudanças no nível econômico
  • Mudanças nos processos de aquisição de novas informações

Dependendo da configuração atual da vida da pessoa idosa, o processo terapêutico pode ganhar um sentido em si, para além das questões de sofrimento que a pessoa possa trazer. Ir à terapia e embarcar na viagem de autoconhecimento pode ser algo que gera um sentido central para a vida do paciente. Da mesma maneira, o vínculo com o terapeuta também pode passar a assumir essa centralidade. É preciso atentar para essa relação que o sujeito pode estabelecer com o processo, porque ela influencia diretamente nas demandas que a pessoa traz e na direção do tratamento.

Ainda no campo da transferência, é comum um padrão de reforçar a dependência, ao qual devemos atentar para manejar de maneira adequada. O ideal é manter um nível de acolhimento suficiente para sustentar a relação terapêutica, sem reproduzir a lógica da dependência.

Também não é raro que atender idosos desperte nos terapeutas questões relacionadas ao seu próprio processo de futuro envelhecimento e mortalidade. É de extrema importância atentar a esses pontos para trabalhá-los em seus próprios processos terapêuticos.

mãos de idosa que estão uma em cima da outra

Fonte: sabinevanerp / Pixabay

Hipnose em idosos

Embora a hipnose clássica exista há séculos, o estilo terapêutico contemporâneo baseado nos métodos clássicos está muito relacionado à modernidade. Estilos muito diretivos, que envolvam um processo de indução baseado em instruções (como a indução de Dave Elman, por exemplo), tendem a excluir o paciente idoso do processo.
Utilizar métodos conversacionais de indução, que resgatem o sentido narrativo, parece ser a melhor alternativa.

Outro recurso extremamente importante é buscar metáforas que se encaixem na realidade do paciente. Procurar saber durante a anamnese quais são os interesses da pessoa idosa permitirá que você construa metáforas adequadas para a hipnoterapia.

Ainda que a queixa central não esteja relacionada a dor crônica, antes de abordar as questões relacionadas à demanda, pode ser também interessante instalar alguns gatilhos de conforto e controle de dor.

Como a hipnoterapia pode ser mais longa do que uma consulta comum, queremos garantir que o paciente esteja confortável. Ainda com relação à questão da duração, quando tratamos de pessoas idosas, é recomendável não estender demais o momento da hipnose e permitir mais tempo da sessão para escutar o paciente.
Em resumo, a hipnose pode ser uma ferramenta interessante para a terapia com pessoas idosas. Respeitar a possibilidade do paciente narrar a própria história e resgatar os recursos que ele possui é o caminho de base para fortalecer cada vez mais esse sujeito que retoma a si mesmo.

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Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo e hipnoterapeuta pela OMNI Hypnosis Training Center. Utiliza a hipnose na área clínica, com foco em tratamento de ansiedade. Trabalha também com hipnose experimental e auto-hipnose para desenvolvimento pessoal.

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