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A história da hipnose: Entenda a evolução da técnica

Como surgiu a hipnose? Como ela se desenvolveu ao longo dos séculos? É possível traçar uma história da hipnose? Qual a relação entre hipnose e o contexto social?

Este artigo ajudará a clarificar essas questões.

Se compreendemos a hipnose como um fenômeno natural e inerente ao ser humano, como é possível traçar sua história?
Da mesma maneira como Foucault traçou a história da sexualidade, realizando uma análise dos discursos acerca desse tema, nós entenderemos a história da hipnose como a descrição dos modos de compreendê-la.

A história da hipnose é a história das maneiras como ela foi compreendida e culturalmente apropriada ao longo dos anos. A hipnose em si não mudou, mas nossa maneira de explicá-la, percebê-la e utilizá-la é que se alterou historicamente.

História hipnose entenda evolução técnica

Hipnose na antiguidade

Comumente se comentam os rituais religiosos das civilizações antigas como o início da hipnose. Se pensarmos na hipnose como o uso da linguagem para a mudança dos modos de pensar, ser e agir, podemos, de fato, colocar as práticas ritualísticas nessa categoria.
Sejam sacerdotes de Sekhmet no Egito antigo, os oráculos na Grécia, os asclepíades romanos ou os mestres dos mantras no hinduísmo, os modos de transformação apresentavam certas semelhanças.

Esses rituais de cura pelo simbólico tinham em comum o fundo místico e a presença de uma figura de autoridade. A imbricação do lado xamanístico perdurou por muito tempo e pode-se encontrar até hoje pessoas que defendem o lado espiritual da hipnose.

Outros fatores permanecem hoje presentes, porém com outras explicações. Por exemplo, a ideia presente no mantra existe como o foco na repetição para a mudança. A ideia da cura através do sonho presente no culto grego “Esculápio” sobrevive hoje na concepção de trabalho com uma instância não consciente.

Ao longo dos anos as explicações com relação à eficácia simbólica da linguagem e dos rituais se alteraram acompanhando sempre a filosofia de cada época. Mas a guinada definitiva no modo de compreender a hipnose começou no século XVIII.  Com o advento do Iluminismo iniciou-se a busca por uma compreensão mais científica dos fenômenos.

Franz Anton Mesmer (1734-1815)

Com Franz Anton Mesmer se iniciou o longo processo de transição do ocultismo para a compreensão científica da hipnose. Mesmer foi uma figura dúbia e contraditória, tanto em sua abordagem da hipnose como nas consequências do seu trabalho.

Se por um lado, podemos considerá-lo como o inaugurador da era moderna da hipnose, por outro foi o principal responsável pela imagem negativa dos hipnotistas que se perpetua até hoje.

Mesmer iniciou a aproximação da hipnose com o saber científico da época, depois afastando-se dele. Inspirado pelas Leis de Newton publicadas no final do século XVII e que marcaram o Zeitgeist da época, Mesmer criou o conceito de magnetismo animal. A ideia era a de que, da mesma forma como os planetas exercem influência um sobre o outro através da força gravitacional, os seres humanos operavam na mesma lógica com uma força universal nomeada magnetismo.

Mais tarde, ele começou a aplicar o conceito que havia teorizado em sua clínica médica. A primeira paciente, Franzl Oesterline, foi tratada de um quadro convulsivo por Mesmer. Foi utilizado um ímã como instrumento para permitir o fluxo do magnetismo animal do médico para a paciente.
Hoje compreenderíamos o ocorrido como uma sugestão hipnótica que permitiu o alívio dos sintomas, mas o sistema de crenças que operava na época era outro. Sua fama se espalhou pela Europa e suas práticas se aproximaram cada vez mais de um espetáculo com demonstrações dramáticas de seus poderes.

Junto com a exibição teatral de suas técnicas iniciou-se o processo de crítica por parte dos demais médicos da época. Ele foi acusado de charlatanismo e fraude, e uma comissão foi instaurada pelo rei da França para investigar suas teorias. A comissão, ao comparar resultados de procedimentos realizados com e sem magnetismo, não encontrou diferenças nos resultados. Concluíram, portanto, que Mesmer não possuía base científica para suas práticas.

Essa disparidade entre teoria e prática, no entanto, não foi estudada até o final do século XVIII. Mesmer estava equivocado na explicação por detrás do seu êxito na clínica, ainda assim apresentava resultados positivos com seus pacientes. A comissão apenas refutou as causas teorizadas por ele, porém sem buscar o motivo do seu sucesso.

A busca por uma nova explicação veio somente em 1796. O médico americano Elisha Perkins havia patenteado um dispositivo de metal utilizado em curas pela eletricidade à distância, de maneira similar ao magnetismo de Mesmer. John Haygarth realizou experimentos em laboratório com o dispositivo de metal e outro similar de madeira, obtendo os mesmos efeitos. Haygarth então teorizou o efeito placebo. Ficou em evidência pela primeira vez a influência da sugestão e da autoridade nos processos de cura.

Embora tenha mantido elementos ritualísticos, Mesmer foi o primeiro a desenvolver um método para sua prática, o que possibilitou que suas teorias fossem refutadas e verificadas. Sua contribuição para o desenvolvimento da hipnose nos séculos seguintes é inegável.

História hipnose entenda evolução técnica

Século XIX

Aos poucos as crenças no magnetismo se dissiparam, porém as técnicas de Mesmer continuaram a ser utilizadas nas práticas de diversos médicos, por apresentarem eficácia. A técnica prosseguiu com o reconhecimento de que funcionava, mas sem uma explicação científica embasando-a.

John Elliotson (1791-1868) foi um dos principais nomes na época, abrindo a Enfermaria Mesmérica de Londres em 1849, onde começou a utilizar hipnose para anestesia e controle da dor.

Podemos considerar que Elliotson foi o precursor de James Esdaile (1808-1859), um cirurgião que trabalhou na Índia realizando inúmeras cirurgias apenas com anestesia hipnótica. Ele criou o que hoje chamamos de estado de coma hipnótico ou estado de Esdaile, em que a profundidade do transe hipnótico causa anestesia sem sugestão.

A partir da metade do século XIX, ganharam força as teorias francesas chamadas de escola de Nancy e de Saltpêtrière. A escola de Saltpêtrière teve como defensor mais conhecido Jean-Martin Charcot (1825-1893). Ele trabalhou fundamentalmente com casos de histeria, utilizando autoridade e procedimentos disciplinares em seus tratamentos. Freud inicialmente trabalhou com essa perspectiva, abandonando posteriormente a hipnose em favor da associação livre e do trabalho com a transferência.

Charcot comparou os fenômenos hipnóticos aos sintomas observados na histeria, como a catalepsia, a letargia e o sonambulismo. Teorizou, a partir dessas observações, que a hipnose seria portanto um estado de anormalidade. A escola de Nancy se opunha a essas concepções.

Hippolyte Bernheim (1840-1919) desafiou o conceito de Charcot de 3 estágios. Argumentou que a sugestionabilidade era uma característica normal do ser humano e não um estado anormal.
Essa polêmica entre as escolas francesas deu origem à disputa entre concepções de estado e de não-estado sobre a hipnose.

A disputa francesa foi também um marco porque passou-se a discutir a fundo o que era hipnose, buscando desvelar seu funcionamento. Deixou-se de questionar “se” a técnica era um fenômeno válido e buscou-se aprofundar em seu estudo.

James Braid (1795-1860)

Se Mesmer iniciou a aproximação com a ciência, James Braid foi quem completou esse processo. Considerado o pai da hipnose, foi o responsável por cunhar o termo hipnose, afastando-o do mesmerismo. Ao assistir uma sessão de mesmerismo onde os sujeitos não conseguiam abrir os olhos, Braid começou a estudar foco visual.

Teorizou, então, que o mesmerismo não dependia de magnetismo, mas sim de fixação do olhar e atenção. Esse foi o início da passagem e compreensão do fenômeno hipnótico como algo dependente do sujeito e não do poder do hipnotista. Braid induzia o transe através de foco visual em objetos iluminados, como velas. Produzia assim cansaço visual que provocava o fechamento das pálpebras. Como ele comparou inicialmente o fenômeno com o sono, cunhou o termo hypnotism, devido ao deus grego do sono, Hypnos.

Posteriormente, ao concluir que hipnose não tinha qualquer relação com o sono, criou o termo monoideísmo para indicar a fixação da atenção em uma única ideia. Porém o termo hipnose já havia se difundido e se arraigado na linguagem. Seu prolífico trabalho clínico permitiu finalmente o reconhecimento da hipnoterapia como um procedimento válido.

O reconhecimento da hipnose como um fenômeno psicológico foi o marco do seu desenvolvimento a partir do século XX.

Século XX

Durante o século XX, o centro do conhecimento em hipnose começou a migrar da Europa para os Estados Unidos.
Joseph Jastrow (1863-1944) foi um dos principais responsáveis por divulgar a hipnose para a audiência leiga, começando o resgate da imagem dos hipnotistas e combatendo a ideia de controle mental.

Foi também nesse século que eclodiu a semente plantada pelas escolas francesas com relação ao conceito de transe. A discussão sobre as teorias de estado e não-estado culminou com Hull.

Para defensores da teoria de estado, o transe hipnótico seria um estado de consciência diferente daquele presente no cotidiano. Para defensores da teoria de não-estado, os fenômenos hipnóticos se apresentam no dia a dia, sem a necessidade de um estado diferenciado.

Seguindo a racionalidade da época, as aplicações clínicas continuaram a se desenvolver. Porém, agora ao lado de pesquisas científicas do fenômeno em si, de maneira similar aos estudos sobre percepção.

Dave Elman (1900-1967), nesse contexto, foi importante por criar uma indução rápida, possibilitando agilidade nos tratamentos terapêuticos. Se a hipnose foi anteriormente posta de lado por muitos médicos pela demora em induzir os sujeitos ao transe, com Elman ela voltou a se apresentar como uma alternativa viável.

Aos poucos, a hipnose começou a integrar também o corpo do saber relacionado à auto-ajuda. Criou-se nesse contexto a auto-hipnose (termo popularizado por Émile Coué).

História hipnose entenda evolução técnica

Milton Erickson (1901-1980)

Milton Erickson foi o responsável por questionar profundamente a ideia de autoridade do hipnotista para o processo terapêutico.

Focando na relação terapêutica, Erickson trabalhou a linguagem e o uso de metáforas como ferramentas para engajar processos não conscientes. Sua maior contribuição para a história da hipnose foi trazer de volta o foco no indivíduo para o processo terapêutico e desenvolver ferramentas alternativas à sugestão direta.

História da Hipnose no Século XXI

Desde o final do século XX até os dias atuais, a hipnose possui novos desafios. O advento das técnicas de ressonância magnética e o aprimoramento do escopo de conhecimento em neurociências abriram novos horizontes. As novas fronteiras consistem em organizar as diversas frentes de conhecimento sobre a hipnose e estabelecer diálogos entre elas.

Temos uma infinidade de teorias de diferentes vertentes. Algumas de cunho filosófico associadas ao desenvolvimento pessoal, outras teorias sociológicas e comportamentais que associam a hipnose ao contexto social como determinante dos comportamentos esperados pelos seres humanos e algumas teorias baseadas nas neurociências que procuram associar fenômenos hipnóticos a estados fisiológicos cerebrais, etc.

A história da hipnose no século XXI continua se escrevendo dia após dia. O nosso maior desafio é ir além e desvendar as possibilidades inexploradas da hipnose. Como diria Platão, “A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos”.

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Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo e hipnoterapeuta pela OMNI Hypnosis Training Center. Utiliza a hipnose na área clínica, com foco em tratamento de ansiedade. Trabalha também com hipnose experimental e auto-hipnose para desenvolvimento pessoal.

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