Junte-se ao grupo de assinantes e receba dicas, e-books e artigos do HypnoPlace.



Hipnose conversacional

A questão da intencionalidade sempre foi um dos temas centrais das discussões sobre hipnose.

Seria possível hipnotizar uma pessoa sem informar claramente o que será feito? Uma conversa pode ter os mesmos efeitos obtidos com hipnose clássica?

Como as respostas a essas perguntas alteram as definições que comumente utilizamos sobre hipnose?

Confira neste artigo!

Delimitação do problema

Como a hipnose nasceu mais como prática do que como campo teórico, os embates a respeito do que gera o fenômeno hipnótico sempre foram bastante calorosos. Você pode conferir em detalhes no artigo, aqui em nosso blog, sobre a história da hipnose.

Existe uma concordância sobre quais fenômenos chamamos de hipnose, porém não sobre o que permite que ela aconteça. No cerne dessas discussões sempre esteve o setting hipnótico. O que é necessário que exista dentro de um contexto para que a hipnose ocorra?

Durante muito tempo, alguns pontos foram levantados como condições necessárias, porém, um a um, esses aspectos foram questionados. O relaxamento, a autoridade do hipnotista ou até mesmo o fechar dos olhos já foram considerados requisitos para que a hipnose acontecesse. Hoje, contudo, sabemos que processos hipnóticos podem ocorrer mesmo na ausência dessas premissas.

Os últimos baluartes da hipnose a serem colocados em questão foram as induções e a explicitação do contexto hipnótico. Existem duas grandes perguntas que demarcam o problema:

É possível retirar o processo de indução formal da hipnose? Considerando que a indução é o procedimento que delimita a passagem de um momento pré-hipnose a um momento hipnótico, seria possível apagar esse limite?
É possível causar mudanças utilizando hipnose sem dizer ao sujeito previamente o que se irá fazer? Ou em última instância, é possível uma hipnose encoberta?

A hipnose conversacional condensa as respostas a essas questões. Ao se utilizar de processos de linguagem verbal e não-verbal, a hipnose conversacional abre caminho para a possibilidade de apagar os limites tanto da indução como da intenção explícita do sujeito.

equipe debatendo sobre hipnose conversacional

Fonte: Free-Photos / Pixabay

Milton Erickson

É impossível falar sobre hipnose conversacional sem falar sobre Milton Erickson. Embora as técnicas conversacionais não se resumam àquelas utilizadas por Erickson, é inegável sua influência na mudança de paradigma com relação à prática em hipnose.

Ao entender o transe como algo natural a todas as pessoas, Erickson utilizava uma linguagem espontânea e acessível para cada paciente. Resgatava elementos e estruturas presentes no contexto de cada pessoa.

Erickson se utilizava da capacidade de improviso para criar histórias metafóricas para trabalhar questões de seus pacientes relacionando campos de significado aparentemente distantes. Também lançava mão de sugestões indiretas e padrões de linguagem específicos. Unindo as capacidades verbais às habilidades de comunicação não verbal, Milton Erickson terminou por desenvolver um modo de trabalhar extremamente eficaz.

Principais conceitos e técnicas da hipnose conversacional

A ideia principal da hipnose conversacional é utilizar diferentes técnicas de linguagem para obter o efeito desejado. Sempre partindo do suposto de que existe já um rapport estabelecido, seguem algumas técnicas que ajudarão na sua prática diária:

  • Metáforas. O principal uso das metáforas em hipnose conversacional é dentro dos processos terapêuticos. Você pode criar histórias e anedotas para esclarecer um assunto (é sempre mais fácil recordar uma história do que apenas um conteúdo solto), sugerir soluções para problemas, levar as pessoas a se reconhecerem e identificarem as próprias atitudes, ressignificar um problema. Como a estrutura narrativa é mais palatável, lidar com as resistências à mudança fica muito mais simples.
  • Acompanhar e conduzir. Você pode observar as reações da pessoa e criar um contexto onde você possa passar a incluir mais reações. Por exemplo, dentro de um contexto hipnótico, ao ver a pessoa respirar, você pode dizer “isso, e você se permite respirar profundamente” (acompanhar). Esse tipo de comentário gera a impressão de causalidade entre a sua fala e a ação do sujeito, o que permitirá que durante a conversa você inclua mais ações (conduzir).
  • Padrões de linguagem. Você pode utilizar estruturas que tornam as sugestões mais permissivas. “Se ____, então _____.” Na estrutura anterior de causa e efeito a probabilidade de aceitação da segunda parte aumenta uma vez que a primeira parte é processada. “Você vai fazer isto agora ou depois?” Nesta estrutura de implicação, você já afirma ao sujeito de maneira implícita que ele irá realizar a tarefa. “Pode ser que você _____.” A estrutura permissiva funciona para criar sugestões que soam menos compulsórias. “Quanto mais você respira, mais relaxado você se sente.” Esta estrutura de reforçamento atua como um looping para influenciar o estado do sujeito.
  • Sobrecarga mental. Erickson utilizava um padrão confuso de linguagem (por exemplo: “lembrar de esquecer ou esquecer de lembrar”) para gerar sobrecarga, porém esse tipo de frases evidencia ao sujeito a intenção do hipnotista de gerar uma confusão. No modelo mais recente de hipnose conversacional, são utilizadas expressões de direcionamento da atenção para gerar uma sobrecarga oculta. A fala parece normal ao sujeito, mas está carregada de palavras de direcionamento. Por exemplo: esta frase pode parecer normal, mas através dessas palavras, por cima do que você já pensou, de modo que você examina completamente esta questão e percebe como isso te faz sentir ao lado do que você já visualizou antes a respeito de padrões de linguagem, você se dá conta de que estas palavras levam a um ponto de confusão de maneira disfarçada.
  • Comunicação não verbal. Olhar, expressões faciais e tom de voz podem ser usados de modo a provocar as reações desejadas.

Essas e outras técnicas podem ser amplamente utilizadas para gerar comandos embutidos, ou seja, para criar sugestões disfarçadas que sejam mais facilmente aceitas pelos sujeitos hipnóticos.

homem dando aula

Fonte: robinsonk26 / Pixabay

Onde usar hipnose conversacional

Uma vez que as técnicas são incorporadas ao seu repertório, você poderá utilizá-las para uma série de contextos diferentes:

  • Para melhorar sua capacidade de persuasão e oratória.
  • Para utilizar a linguagem de maneira mais eficaz na clínica.
  • Para vendas.

Na prática, sempre usamos a linguagem para produzir efeitos, de maneira implícita ou explícita. Extrapolando esse conceito, poderíamos dizer que utilizamos hipnose conversacional o tempo todo, de maneira inconsciente.

Clarificar e aprimorar as técnicas permite obter um melhor domínio de como usamos a linguagem e, portanto, de como interagimos com outras pessoas.

Para quais objetivos você gostaria de usar a hipnose conversacional? Comente aqui e compartilhe com seus amigos e familiares para saber deles também!

Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo e hipnoterapeuta pela OMNI Hypnosis Training Center. Utiliza a hipnose na área clínica, com foco em tratamento de ansiedade. Trabalha também com hipnose experimental e auto-hipnose para desenvolvimento pessoal.

X