Junte-se ao grupo de assinantes e receba dicas, e-books e artigos do HypnoPlace.



Ganhos secundários na hipnoterapia

Por que, às vezes, um processo terapêutico parece estancar em um estágio?

Existem pacientes que apresentam uma relação complexa com os próprios sintomas. Ao mesmo tempo em que sofrem, apresentam certas vantagens – explícitas ou não – ao manter aquela situação. A essas vantagens chamamos de ganhos secundários. Entenda o que é e como lidar com essas questões na hipnoterapia.

Histórico dos ganhos secundários

No início do desenvolvimento da teoria psicanalítica, Freud cunhou os termos “ganho primário” e “ganho secundário”.

Ganho primário, ou paranósico, seria o resultado da ação de um mecanismo de defesa para reduzir a ansiedade associada a um evento traumático. Ou seja, a criação de um sintoma alivia a pessoa de um conflito psíquico. Por exemplo, um homem que cometeu um homicídio com as próprias mãos e se sente amargurado com isso termina por desenvolver uma paralisia no braço. A criação desse sintoma de conversão atua como uma maneira de autopunição, o que diminui a culpa e a ansiedade geradas pelo homicídio.

Já o ganho secundário, ou epinósico, seria uma vantagem interpessoal ou social obtida como consequência do sintoma. Por exemplo, uma pensão ou compensação financeira por conta de uma doença ou o aumento da atenção dos familiares quando um sintoma aparece.

Tanto o ganho primário quanto o ganho secundário são importantíssimos para qualquer processo terapêutico. Um dos objetivos da terapia é desfazer a solução de compromisso entre o sintoma criado e a ansiedade original que ele resolve. Basicamente, se encontram outras alternativas para processar aquele sofrimento sem a necessidade de criar novos sintomas.

No entanto, é notável que quando existem fortes ganhos secundários, os pacientes se mostram mais refratários ao processo.

Como identificar ganhos secundários

grupo estudando

Fonte: Pixabay.com

A melhor maneira de identificar a presença de ganhos secundários é realizar uma anamnese aprofundada em conjunto com um acompanhamento constante dos resultados do tratamento.

Algumas perguntas diretas podem auxiliar a identificar esse tipo de benefício, mas o ideal é que elas sejam feitas dentro do contexto da história do paciente. Quando a pessoa conta a história do seu sintoma, os possíveis ganhos secundários costumam aparecer com frequência no meio do discurso.

Caso você ainda precise treinar sua escuta para detectar esses casos, algumas questões podem auxiliar na empreitada:

  • Como sua família/seus amigos lidam com seu problema? Essa questão ajudará a identificar se houve algum tipo de mudança na esfera das relações do paciente.
  • Como esse problema afetou sua vida profissional?
  • Qual seria a pior coisa que poderia acontecer caso você deixasse de apresentar esses sintomas? Essa pergunta ajudará o paciente a identificar também em quais aspectos da própria vida o problema foi adaptativo.

Os benefícios mais comuns e evidentes se associam geralmente a questões financeiras, mas qualquer possível vantagem pode ser um fator de ganho.

Abaixo seguem alguns exemplos de possíveis ganhos secundários aos quais precisamos prestar atenção:

  • Compensações financeiras advindas de situações de incapacidade.
  • Melhores condições de trabalho.
  • Bonificação de uma luta pré-existente. Por exemplo, entrar em licença médica e receber o salário sem precisar trabalhar em um ambiente onde o funcionário se sentia desvalorizado. É importante analisar a situação e compreender se o benefício se associa ao medo de ter de voltar a trabalhar naquele ambiente, ou se está relacionado a uma sensação de vingança ou justiça. A natureza do ganho secundário mudará o modo de lidar com essa questão na clínica.
  • Criação de comportamentos de apego ou tentativa de eliciar comportamentos de cuidado. Por exemplo, quando o sintoma cria uma situação em que familiares, cônjuges ou amigos dão mais atenção ao paciente. As pessoas próximas ao paciente podem se tornar super protetoras e mais cuidadosas, gerando uma relação de maior cumplicidade que pode dificultar o trabalho com o sintoma.
  • Criação de um antagonismo familiar, que se torna prazeroso ao paciente. Nestes casos, quando existe um conflito familiar anterior ou quando existe uma relação onde o paciente ressente sua família, o aumento ou explicitação do conflito após o aparecimento do sintoma gera para o paciente o prazer de sentir que estava certo o tempo todo. O ganho secundário funciona aqui como uma confirmação prazerosa de que o paciente sempre teve razão com relação aos outros.
  • Drogas. Se o sintoma exige algum tipo de tratamento com medicamentos, especialmente em casos de dor crônica, o paciente pode ser refratário ao tratamento devido ao ganho secundário associado ao sistema de prazer que é ativado por certos tipos de remédios.
  • Manter um relacionamento. Existem configurações onde uma relação é mantida por um senso de obrigação implícito. O cônjuge está com o paciente porque se sentiria culpado de abandoná-lo no momento de doença. A manutenção do sintoma atua então como laço dentro do relacionamento.
  • Ganhos para terceiros. Em casos de doenças psicossomáticas, sobretudo, é comum que existam ganhos para os cônjuges, que terminam por satisfazer ao próprio paciente dentro de uma relação. Talvez o cônjuge sinta prazer em ter uma relação de cuidado mais hierarquizada, por exemplo.
  • Legitimar crenças sobre si ou sobre outros. Por exemplo, provar que tem pouco valor (confirmar uma ideia de baixa auto-estima, diminuindo a tensão) ou comprovar uma ideia de que o mundo é injusto.
  • Legitimar características criticáveis. O sintoma ou doença pode servir como justificativa para comportamentos desagradáveis do paciente.

Ganhos secundários na hipnoterapia

Fonte: Pixabay.com

Uma vez identificada a presença de ganhos secundários, o que podemos fazer?

Na clínica, os ganhos secundários costumam ser um grande inimigo para processos de terapia breve. Existem, porém, meios que podem ajudar a lidar com essas questões de maneira eficaz.

Durante a hipnoterapia, o foco é quase sempre o ganho primário. Buscamos entender qual foi o conflito que gerou aquele sintoma, para então resolvê-lo. Esse ainda deve ser o objetivo principal.

No entanto, é importante adicionar ainda em hipnose um trabalho direto com os ganhos secundários.

A melhor alternativa nesses casos é trabalhar com teoria de partes durante a hipnoterapia. Com o paciente em hipnose, você pode utilizar a metáfora das partes para identificar e nomear qual é a parte responsável pela manutenção daquele ganho secundário.

Uma vez identificada essa parte, você pode solicitar a ela que identifique qual a intenção positiva do comportamento.

Por exemplo, no tratamento de uma pessoa fumante, talvez a pessoa diga: fumar mantém minha ansiedade controlada e me ajuda a manter meu peso sob controle.

Faça então a seguinte pergunta ao paciente: se houvesse outras maneiras de manter essa mesma intenção positiva, sem precisar manter o sintoma, você gostaria de trocar esse comportamento?

Peça então ao paciente que pense em maneiras criativas de manter o ganho. No caso do paciente fumante, ele talvez traga ideias como criar uma rotina de exercícios ou mudar a relação com a própria alimentação. Quando várias alternativas forem listadas, ofereça ao paciente a possibilidade de estabelecer um compromisso com essas alternativas.

Por fim, reforce ainda durante a hipnoterapia os hábitos condizentes com os comportamentos alternativos.

Quando o caso envolver ganhos dentro de uma relação familiar, especialmente no trabalho com crianças, é necessário trabalhar também com a família. Explicitar aos pais quais comportamentos deles estão servindo como ganho secundário para a manutenção do sintoma da criança e indicar novos modos de agir é de extrema importância para o curso do tratamento. Um exemplo muito simples é o aumento do carinho ou da atenção quando a criança apresenta o problema. Indicar aos pais como agir nessas situações ajudará a romper o ciclo do sintoma.

Compartilhe com seus colegas e comente quais tipos de ganhos secundários você já enfrentou na clínica!

Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo e hipnoterapeuta pela OMNI Hypnosis Training Center. Utiliza a hipnose na área clínica, com foco em tratamento de ansiedade. Trabalha também com hipnose experimental e auto-hipnose para desenvolvimento pessoal.

X