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Ética na hipnoterapia: Fundamentos e questões

Como se dá a ética na hipnoterapia? Quais são os principais dilemas dentro dessa prática clínica?

É possível traçar as principais questões presentes dentro da nossa prática clínica?

Confira as respostas dessas e de outras perguntas neste artigo!

placa indicando caminho certo e errado

Fonte: Tumisu / Pixabay

Ética x Moral

Primeiramente, é interessante estabelecer a diferença entre ética e moral para facilitar a análise do problema.

Para o contexto deste artigo, chamaremos de moral as regras e costumes impostos em um certo contexto. Já a ética será a reflexão sobre nossos modos de agir e o que os fundamenta.

Ambos conceitos estão relacionados, já que no geral as normas e costumes derivam de uma reflexão sobre nossa ação. Porém, pode-se dizer que o pensar ético se estende para além das regras, trazendo à tona grandes discussões e dilemas sobre nossa prática.

Ética na hipnoterapia: melhores práticas para a conduta terapêutica

Como não existe uma instituição responsável por regular a atividade de hipnoterapia no Brasil, as diretrizes abaixo servem a título de conselhos para a prática clínica. Sempre lembrando que caso você pertença a algum conselho profissional que possua regulamentação para o uso da hipnose, as regras do código de ética da sua profissão devem ser observadas.

  • Ter sempre em vista a integridade física, emocional e mental dos pacientes.
  • Manter o sigilo profissional com relação aos atendimentos.
  • Conhecer seus limites e realizar um encaminhamento quando necessário. Neste ponto é também importante o compromisso com o autoconhecimento e com terapias para si mesmo, para que o terapeuta não misture suas próprias questões.
  • Compromisso com a atualização constante.
  • Não ultrapassar o escopo de outros profissionais e dispor-se a trabalhar em conjunto para o bem-estar do paciente.
  • Manter o ambiente e a prática clínica livres de todo tipo de preconceito.

Questões éticas amplas

Quando partimos para o campo dos dilemas éticos, as questões se tornam mais complexas. Existem alguns problemas que exigem de nós uma reflexão profunda acerca da nossa prática e que não podem ser facilmente resolvidos com regras.

Apresento alguns dilemas abaixo. A ideia não é brindar uma solução clara, mas sim abrir a discussão nos diversos âmbitos da hipnoterapia.

  • Clínica breve x Cuidado de si

Este problema não é específico da hipnoterapia, mas comum a todos os tipos de terapia breve. Existe a tendência entre hipnoterapeutas de atuar pontualmente e de maneira rápida.

Por um lado, essa modalidade clínica pode gerar resultados visíveis de maneira muito rápida, tornando-se um potente catalisador de mudanças. Por outro lado, a solução mágica atua contra a autonomia do paciente, de certo modo.

O horizonte do nosso trabalho deveria ser contribuir com a vontade do paciente de cuidar de si mesmo. Pode existir um nível onde a solução rápida crie a ilusão do bem-estar como um produto a ser consumido. A lógica seria: me sinto mal, portanto vou a um terapeuta, e volto bem.

Devemos levar sempre em conta a possibilidade dessa interpretação por parte do paciente e tomar o máximo possível de precauções para que exista no processo terapêutico uma retomada da autonomia desse cuidado. O ideal é que o paciente, no processo, se compreenda como agente e não como simples clientela de um serviço.

homem de braços cruzados

Fonte: SplitShire / Pexels

  • Poder do terapeuta

Também dentro dos dilemas presentes na clínica em geral, está a necessidade de compreender que o lugar de terapeuta é um lugar de poder. Por mais que se busque estabelecer relações de igualdade, sempre haverá uma disparidade.

Existe uma pessoa que busca ajuda e atribui ao terapeuta a capacidade de ajudar, a priori. Essa expectativa já cria por si um desnível na relação terapêutica. Quando somamos a isso a visão que o público leigo tem a respeito da hipnose, esse desbalanço é ainda maior.

Além de desmistificar esse lugar do hipnoterapeuta como detentor de um saber e controle mágicos, devemos constantemente questionar nosso próprio lugar de poder.

Alguns terapeutas que trabalham com hipnose dirão que esse desnível de autoridade é necessário para que o processo ocorra. Ainda assim, devemos sempre nos perguntar antes de qualquer atitude: estou abusando do meu poder?

Essa pergunta vale tanto para questões simples como o respeito ao corpo do outro e à diversidade, como para questões amplas como a decisão de qual técnica utilizar e o grau de informação que é passado ao paciente. Neste tópico também é interessante questionar a todo momento nosso olhar analítico ou interpretativo.

Antes de passar ao paciente qualquer análise ou interpretação, devemos nos questionar a respeito da possibilidade de erro. Impor uma certa interpretação pode ser um ato de violência para com o sujeito a nossa frente.

  • Como atuar com relação às demandas do paciente

Existe uma tendência entre os terapeutas de processos breves em tratar a terapia como um produto. “O cliente me paga para obter o resultado x. Portanto é isso que devo brindar ao cliente.”

Embora essa afirmação pareça razoável do ponto de vista mercadológico, ela pode ser extremamente nociva dentro da clínica. A função da terapia não deveria ser atender às demandas do paciente, mas promover um horizonte de autonomia e resolução de conflitos internos.

Claro que ao mesmo tempo não podemos ignorar que o paciente chega até nós com uma queixa específica, que deve ser tratada de algum modo. Esse dilema entre manter a ética na hipnoterapia e permitir ao paciente alcançar o que quer é constante dentro do processo terapêutico.

Nossa atuação não deve se pautar unicamente pela demanda inicial, mas permitir que esse sofrimento seja escutado desde outro ponto de vista.

  • Engajamento x Ética da promessa

Qual é o limite entre manter o paciente aplicado e engajado no processo e realizar promessas de cura? Essa é seguramente uma das questões éticas mais difíceis de resolver.

Sabemos que em qualquer processo terapêutico é necessário que o paciente esteja investido de alguma maneira. Muitos terapeutas buscam criar esse investimento através de histórias de sucesso, criando fantasias de uma cura muito simples que está às mãos do paciente.

Isso é problemático, já que não se sabe onde chegará o paciente, ou qual caminho terá que atravessar para chegar até lá.

Caminhar a fina linha entre permitir que o paciente se implique no processo sem tornar-se um vendedor de promessas de cura é talvez o nosso maior desafio.

Ética na hipnoterapia: conclusão

Existem vários outros dilemas éticos que podemos levar em consideração. São justamente essas questões (de ética na hipnoterapia) para as quais não temos uma resposta simples e fechada, mas que colocam em movimento nossa reflexão diária sobre a clínica.

Manter essas perguntas sempre dentro do nosso horizonte terapêutico nos permitirá talvez trabalhar na busca da libertação dos sujeitos. E poderemos cada vez mais atuar eticamente no mundo.

Gostou do artigo? Compartilhe com seus amigos e comente quais dilemas éticos você enfrenta no seu dia a dia de trabalho.

Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo e hipnoterapeuta pela OMNI Hypnosis Training Center. Utiliza a hipnose na área clínica, com foco em tratamento de ansiedade. Trabalha também com hipnose experimental e auto-hipnose para desenvolvimento pessoal.

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