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Enxaqueca: como a hipnose pode ajudar a controlar

Quais aspectos da enxaqueca devem nos chamar a atenção enquanto profissionais da hipnoterapia? O que separa a enxaqueca dos outros tipos de dor, e como isso afeta as especificidades do tratamento?

Essas serão as principais questões abordadas neste artigo.

Histórico e descrição geral da enxaqueca

A enxaqueca vem sendo estudada há cerca de 2 mil anos, passando por diversas interpretações sobre suas origens, estrutura e tratamento. A primeira menção é geralmente atribuída por Areteu da Capadócia, no século I, com o uso do termo heterocrania para descrever a dor que aparecia geralmente em uma das metades da cabeça.

Posteriormente, o termo hemicrania foi usado por Aureliano e essa foi a raiz da palavra usada com mais frequência na maioria dos idiomas contemporâneos: migraine, migrañas, migrâneas. Embora no Brasil utilizemos mais a palavra de origem árabe “enxaqueca”, a origem etimológica de migrânea é interessante para mostrar o sintoma que geralmente se vê associado com crises de enxaqueca: a dor de início em uma das laterais.

Oliver Sacks, em seu livro Enxaqueca, elencou em detalhes os sintomas que aparecem nos quadros de pacientes enxaquecosos. Ele aponta para a diversidade de quadros clínicos, compostos por conjuntos de sintomas bastante heterogêneos.

A enxaqueca comum se dá quando a dor de cabeça é o sintoma central ao redor do qual os demais sintomas se organizam. Os equivalentes de enxaqueca, ao contrário, são aqueles quadros em que o sintoma central é outro (não a cefaleia).

Alguns dos sintomas listados são: dor de cabeça, ânsia, dor abdominal, ação anormal do intestino, letargia e sonolência, febre, produção de catarro, sufusão de pequenos vasos no globo ocular, irritabilidade e fotofobia.

Cada paciente pode apresentar uma constelação diferente desses sintomas, o que dará uma vivência e um sentido diferente para a enxaqueca em cada indivíduo.

A resolução das crises se dá geralmente por dois métodos:

Esgotamento e sono: A crise atinge seu ápice, deixa a pessoa cansada e após o sono a pessoa se recupera.

Catarse: A crise leva a algum tipo de purgação – tendo o vômito como a mais comum  – e a pessoa melhora logo em seguida.

Com relação à incidência, os estudos divergem entre si, variando entre 5% e 20% da população, mas o que sabemos com garantia é que existe uma minoria expressiva de pessoas acometidas por enxaquecas.

Sobre a frequência, existem casos de enxaquecas periódicas e circunstanciais. As periódicas seriam aquelas que possuem um ciclo físico, mas sem disparadores claros. Ela parece ocorrer a despeito de estímulos externos. As circunstanciais estão atreladas a certos tipos de estímulo. Podem ser causadas pela alimentação, luz, odores, barulho, emoções, etc. Essas últimas estão extremamente sujeitas ao condicionamento.

Cérebro

Fonte: TheDigitalArtist / Pixabay

Aura

Uma característica interessante da enxaqueca, que muitos comparam também à epilepsia, é a presença de um conjunto de sintomas premonitórios.

Como geralmente a dor de cabeça aparece como a queixa principal, esses sintomas que antecedem o aparecimento da cefaleia são vistos pelos pacientes como um aviso do que está por vir. Costumam ser sintomas inversos aos sintomas da enxaqueca em si. Por exemplo: sede, constipação, tensão muscular, fome, insônia, hiperatividade.

Em muitos casos aparecem alucinações sensoriais, distúrbios na fala e na ideação. Os tipos de alucinação mais frequentes são os escotomas (perda total ou parcial da acuidade visual de um pedaço do campo visual), flashes visuais, entre outros.

Tratamento

Vale lembrar que é necessário sempre contar com um diagnóstico e tratamento médico. No geral o acompanhamento médico pode incluir tratamento medicamentoso, mas como se tratam de sintomas que afetam de maneira tão global o bem-estar do paciente, é sempre indicada uma abordagem bio-psico-social. Buscar uma visão integral a respeito da saúde e dos recursos do paciente é a melhor opção para garantir bons resultados.

mulher meditando

Fonte: Pexels

Enxaqueca: como a hipnose ajuda

Inicialmente, a hipnose pode ser usada diretamente para modulação da dor durante as crises. Inúmeros estudos comprovam a eficácia da hipnose no controle da dor, e as dores associadas à enxaqueca (de cabeça, abdominais, etc) não são exceção. Caso queira saber mais, você pode verificar estudos comparativos no seguinte artigo: https://doi.org/10.1080/00207140601177921

Nesses casos as técnicas mais eficazes são aquelas relacionadas ao biofeedback. Muitas clínicas de tratamento de enxaqueca se utilizam do biofeedback para auxiliar no controle das pulsações das artérias temporais. Com a hipnose, você pode melhorar essa técnica utilizando por exemplo a técnica da sala de controle. O paciente em hipnose pode imaginar que está na sala de controle de todo o seu corpo e pode girar um botão específico que comanda a pulsação das partes laterais da cabeça, com sugestões de que isso diminuirá o desconforto. Outras sugestões de anestesia ou analgesia também podem ser úteis. O ideal é que você estude a fundo quais são as questões determinantes da dor do seu paciente para decidir qual a melhor técnica.

Com relação à aura e às possíveis alucinações, é muito comum que a noção de eu do paciente seja afetada. Como existe uma ruptura da continuidade da percepção de si e do espaço, a experiência pode ser atemorizante para o sujeito. Neste caso, uma escuta terapêutica e o uso da hipnose para reforçar questões de auto-imagem e auto-estima seriam ideais.

É importante notar também diferenças no tratamento de enxaquecas periódicas e circunstanciais. No caso das periódicas, elas parecem menos receptivas a sugestões diretas e estratégias emocionais de prevenção. Elas parecem acontecer sem um disparador claro, de maneira aleatória, o que para o paciente pode criar uma ideia de impotência e fatalidade.

Neste caso, durante a hipnoanálise, pode ser interessante ajudar o paciente a criar um ajuste fino no momento de identificar o início do processo enxaquecoso, para criar uma situação de maior controle. Criar também uma narrativa onde esses ciclos façam sentido dentro da história do paciente ajuda a diminuir a ansiedade e a sensação de derrotismo. Desse modo, as técnicas empregadas posteriormente serão mais eficientes.

Já no caso das enxaquecas circunstanciais, durante a anamnese é importante realizar uma análise funcional dos estímulos que condicionam sua ocorrência. Identificar a quais estímulos as crises estão atreladas permite posteriormente realizar um processo de dessensibilização. Isso será extremamente útil no tratamento.

Outro aspecto importante a ser notado é o comportamento do paciente enxaquecoso. Afastamento do mundo exterior, regressão (estado de dependência) e recuperação é a reação mais comum. Essa reação é a mesma presente nas ações parassimpáticas após uma situação de luta ou fuga. Após o momento de ameaça, é comum se retrair e ter processos inflamatórios e purgatórios, em seguida recuperando-se. Nesta visão, a enxaqueca pode ser entendida comportamentalmente como uma forma específica de reação a uma ameaça. Ou seja, ela pode ter uma função de proteção.

Esta informação é muito importante, porque geralmente os quadros mais refratários ao tratamento médico estão relacionados a essa ação positiva da enxaqueca. Ela pode ser a reação comportamental que o paciente encontrou para expressar algo, para lidar com stress ou sentimentos negativos crônicos, para recriar situações onde recebe cuidados de alguém amado, etc.

Tendo isso em vista, podemos utilizar a hipnose e particularmente técnicas baseadas em terapia de partes que negociem com esse lado positivo da enxaqueca. Qual função essa parte enxaquecosa do paciente realiza no momento? Quais outras estratégias ele poderia usar no lugar dessas dores? Abrir essas discussões em hipnose pode ajudar o paciente a reelaborar essa “identidade enxaquecosa” e criar novas estratégias para lidar com seus conflitos.

Gostou das ideias do artigo? Se você conhece alguém que sofre com enxaquecas, compartilhe. Ajude a espalhar os benefícios da hipnose!

Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo e hipnoterapeuta pela OMNI Hypnosis Training Center. Utiliza a hipnose na área clínica, com foco em tratamento de ansiedade. Trabalha também com hipnose experimental e auto-hipnose para desenvolvimento pessoal.

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