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Catarse e Hipnose: Descubra a relação

Por que às vezes uma música, uma conversa, um filme ou um livro possuem um efeito intenso de cura nas pessoas?

Catarse é uma palavra que hoje faz parte da nossa cultura de modo geral, como um fenômeno que pode acontecer no dia a dia. Mas qual a sua origem? Como esse conceito pode contribuir para a compreensão das técnicas terapêuticas que utilizamos hoje? Leia o artigo e confira as respostas!

passagem em forma de arcos

Origem histórica

Etimologicamente, catarse deriva do grego κάϑαρσις (kátharsis), que significa limpeza, purgação. Inicialmente a palavra foi usada no âmbito da medicina para falar dos processos purgativos.

A definição mais clássica, porém, é atribuída a Aristóteles, que em sua obra Poética tratou o efeito catártico das tragédias para a platéia. Essas representações teatrais que davam forma aos mitos orais eram realizadas em espaços públicos com a intenção de provocar um certo modo de cura coletiva.

Fazendo uma ponte entre arte e moral, a tragédia trabalharia no sentido de superar e purgar paixões. Isso acontece através da identificação com o protagonista, que seria aquele que enfrenta um conflito carregado dentro de si.

É interessante pensar que a palavra protagonista se origina de proto- primeiro e agon- disputa, luta, embate. Então, “aquele que agoniza, que entrava um embate contra seus conflitos internos” consegue despertar na platéia distintas emoções por meio da identificação.

Para Aristóteles, o prazer estético de assistir a uma tragédia viria sempre associado à piedade e ao temor por meio da mimese.

Esse conceito de cura pela purificação através da tragédia parece bastante exclusivo de um contexto sócio-cultural específico – i.e. a Grécia Antiga. Mas, então, qual o sentido de continuar estudando a catarse nos dias de hoje para além do interesse histórico? Como essas idéias perduraram na modernidade?
Freud e Breuer

A migração desse processo estético-político para o âmbito clínico se deu ao final do século XIX. Breuer e Freud retomaram o termo catarse para designar um método terapêutico específico.

Em 1880, Joseph Breuer se deu conta de que era possível aliviar alguns dos sintomas de histeria da paciente que ficou conhecida como Anna O., fazendo-a recordar experiências traumáticas da infância. Freud era seu par, compartilhando com Breuer a discussão do caso clínico.

O quadro da Anna O. era composto de vários sintomas que apareceram em um dado momento. Entre eles: não ouvir quando as pessoas entravam na sala, surdez seletiva, sustos extremos, estrabismo, etc.

Através da hipnose, os sintomas eram remetidos às cenas traumáticas que os originaram, liberando os afetos associados. Por exemplo, o sintoma de não ouvir quando alguém chegava, estava relacionado a um momento em que não prestou atenção quando o pai chegou na sala e foi repreendida por isso. Naquele momento ela quis reagir, mas reteve a reação, o que causou o sintoma no futuro.

Esse caso pode ter causado o início das divergências entre Breuer e Freud com a teorização da transferência. Porém, podemos ler o caso como emblemático do uso do método catártico.

No início da psicanálise, os sintomas eram vistos como consequência dos efeitos patogênicos de afetos que não puderam encontrar uma via de descarga adequada e foram reprimidos.

Os pacientes, sob hipnose, eram conduzidos a rememorar e revivenciar de maneira dramática os eventos traumáticos. A recondução dessas lembranças à consciência permitia a catarse.

Essa intensidade dramática permitia ao sujeito expressar e descarregar os afetos ligados ao trauma, possibilitando a cura. A essa retomada dos afetos de maneira a requalificá-los e purificá-los deu-se o nome de ab-reação. Você pode se aprofundar no tema através do texto de Freud de 1895: Estudos sobre a histeria.

Tanto a hipnose como o método catártico foram posteriormente abandonados por Freud ao longo do desenvolvimento da psicanálise.

mulher tentando se encontrar no escuro

Psicodrama

Outra importante aproximação mais recente ao conceito grego de catarse com intuito terapêutico foi realizada por Jacob Levy Moreno (1889-1974). Criador do Psicodrama, Moreno acreditava na catarse nos planos: somático, mental, individual e grupal.

O método do Psicodrama, em linhas gerais, consiste na preparação em um grupo para permitir o surgimento de um protagonista e de um tema. Depois, é dramatizada uma cena com o auxílio das demais pessoas presentes para que assumam os “papéis” necessários para o desenvolvimento do tema. Essa representação improvisada, entre outros objetivos, visa a produção de uma catarse de integração, com a reconstrução dos modos de ser e agir frente ao mundo.
O conceito de Moreno se afasta da ideia freudiana de ab-reação, aproximando-se muito mais da ideia de Aristóteles sobre a tragédia. No lugar de considerar apenas o efeito passivo de assistir a uma dramatização, Moreno trouxe o plano da ação, permitindo que o indivíduo seja também ator e criador. Ao produzir aquele personagem de maneira espontânea, a pessoa se envolve de maneira profunda com os conflitos daquela cena, permitindo sua libertação.

mulher de olhos fechados em concentração

Catarse na clínica contemporânea

Compreender o que é catarse em suas diferentes versões nos permite ter uma visão ampla das possibilidades de atuação clínica.

No contexto terapêutico individual, para os terapeutas que se utilizam da hipnose, a ab-reação continua a ser uma ferramenta importante. Muitos terapeutas realizam o processo conhecido como “regressão à causa”. Isso consiste em provocar no paciente uma ab-reação, conduzir ao evento traumático originário e ressignificar esse acontecimento após a liberação da emoção.

A ab-reação em si já possui um efeito terapêutico, por diminuir a quantidade de emoção relacionada ao evento. Porém, dentro de um processo maior, a catarse é apenas o primeiro passo.

Outros terapeutas se utilizam de técnicas envolvendo a dramatização de conversas com personagens importantes. Por exemplo, é comum que se coloque o paciente para imaginar que conversa com os pais, para resolver algum tipo de conflito.

Os papéis são alternados para criar essa situação de diálogo. Em um primeiro momento o paciente se imagina falando aos pais algo sobre o que sente. Depois disso o paciente se imagina no lugar dos pais e continua a discussão. Tendo em vista o caráter catártico dessa representação, é possível conduzi-la de modo mais eficaz para liberar os afetos envolvidos.

Além do setting comum de terapia, o entendimento dos processos catárticos permitem explicar diversos fenômenos sociais e culturais. Um filme que nos comove, uma atividade em grupo que nos emociona, uma conversa que provoca um intenso movimento interno… tudo faz parte dos nossos processos de cura.

Essa purgação dos afetos pode acontecer em qualquer contexto, e podemos aproveitar o potencial da catarse o tempo todo.

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Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo e hipnoterapeuta pela OMNI Hypnosis Training Center. Utiliza a hipnose na área clínica, com foco em tratamento de ansiedade. Trabalha também com hipnose experimental e auto-hipnose para desenvolvimento pessoal.

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