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Automutilação: de que maneira a hipnose pode auxiliar no tratamento

Se olharmos para os sintomas mais presentes na vivência de jovens antes dos anos 2000, dificilmente a automutilação apareceria. Como, então, esse sintoma raro passou a ser epidêmico nos dias atuais?

Quais as especificidades desse tipo de manifestação? A que devemos atentar quando lidamos com a automutilação na clínica e em outros ambientes?

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Definição

A automutilação é definida como qualquer comportamento intencional de agressão ao próprio corpo sem intenção suicida e que não possua um objetivo validado socialmente.

De acordo com a definição, estão excluídos os danos sem intenção. Também estão descartadas aquelas ações que são compreendidas culturalmente, como, por exemplo, as tatuagens. Essa questão é importante porque existem certos tipos de práticas de autolesão que precisam ser olhadas à luz do contexto específico do sujeito. Quando falamos de escarificação – uma série de incisões praticadas na pele para gerar cicatrizes -, por exemplo, fica clara a necessidade de levar o contexto em consideração.

Os arranhões e as incisões na pele podem aparecer tanto como uma forma de automutilação quanto como uma manifestação cultural e artística. Para certos grupos, a escarificação é utilizada como um método de criar desenhos, como uma espécie de tatuagem sem tinta. É essencial, portanto, é importante avaliar o comportamento de maneira funcional, e não apenas topológica.

Embora as ações de autolesão possam ser descritas de maneira muito similar, a questão da intencionalidade e objetivo são essenciais para delimitar o fenômeno.

Tipos de automutilação

A forma mais comum de automutilação é fazer pequenos cortes na pele, também conhecida como cutting. Outras práticas podem envolver se bater, espetar-se com agulhas, queimar-se com cigarros, arrancar o próprio cabelo, etc.

Geralmente, os ferimentos são realizados em partes do corpo que podem ser escondidas.

Incidência

Os sintomas de automutilação se tornaram epidêmicos, atingindo cerca de 20% dos jovens no Brasil. Essas estatísticas se aproximam muito das obtidas ao redor do mundo.

Existe uma clara incidência diferencial. É muito maior o número de casos em adolescentes e jovens do que em adultos. Com relação a gênero, existe uma prevalência em mulheres.

mulher pensando nos problemas emocionais que tem

Fonte: DanaTentis / Pixabay

Motivações

Os adolescentes que apresentam sintomas de automutilação elencam 2 motivos principais para o comportamento:

  1. Para conseguir um alívio de pensamentos e sensações com os quais não conseguem lidar.
  2. Para punir a si mesmos.

No geral, aqueles que citam o primeiro motivo como o principal apresentam uma frequência maior de comportamentos de autolesão.

Os relatos, tanto no campo acadêmico como no contexto clínico, são de que a prática aparece para reduzir ou controlar uma angústia. Diante da indeterminação característica da sensação de angústia, a automutilação aparece como uma solução dupla: ao mesmo tempo que alivia essa angústia, ela lhe dá um contorno, uma localização.

Lidar com aquela sensação angustiante difusa e indeterminada é muito difícil, especialmente para os adolescentes que ainda estão construindo seu repertório emocional. Com a automutilação, eles conseguem circunscrever aquela sensação vaga, localizando-a no corpo sob a forma de dor. É um modo de obter controle sobre aquele sofrimento, dando-lhe formato.

Gerenciar a dor física da lesão é muito mais simples do que lidar com a dor emocional.

Existe também um prazer associado à atividade autolesiva. Pode haver uma satisfação ao ver o sangue escorrer, a pele se levantando, as marcas deixadas…

Ao mesmo tempo, é comum que os jovens que se automutilem, postem em suas redes sociais imagens de seus cortes, dentre outras alternativas de divulgação.

O compartilhamento online leva a alguns fenômenos que devemos ter em conta ao lidar com esses sintomas:

  • Por um lado, existe o efeito de contágio. Ao ver imagens e relatos de automutilações, os adolescentes se identificam com a causa do sofrimento. Essa sensação de que se está passando pela mesma dor que o outro facilita a escolha por aquela mesma forma de gerenciar o sofrimento.
  • Por outro lado, os adolescentes que publicam a respeito de suas práticas de automutilação costuma receber 2 tipos de feedback. Podem receber mensagens de apoio e carinho, para que deixem de realizar essas práticas, o que gera um prazer adicional no alívio da angústia. O comportamento autolesivo leva a um conforto na interação com os outros. E por outro lado, pode ser que eles recebam mensagens agressivas, que geram uma sensação de culpa que pode retroalimentar a sensação de que merecem ser punidos.

De ambas maneiras, existe nesse modo de se comportar um funcionamento muito similar ao dos vícios.

Como a hipnose pode auxiliar no tratamento

mulher refletindo em uma mudança

Fonte: DanaTentis / Pixabay

Dentro do contexto clínico, é de extrema importância entender a estrutura do sintoma e o contexto em que ocorre. Compreender também o estigma advindo das práticas de automutilação, que pode levar ao isolamento, é essencial nas práticas de prevenção em adolescentes.

Como processo terapêutico, as práticas em hipnose para controle de ansiedade podem ser muito úteis para diminuir a frequência da automutilação. Ensinar ao paciente técnicas de auto-hipnose ajudará a criar vias alternativas para o alívio da angústia. Introduzir essas opções diferentes de lidar com a angústia permite quebrar aos poucos o círculo vicioso do vício autolesivo.

Uma técnica interessante para utilizar em casos de automutilação é o que chamamos de meta modelo. Em hipnose, podemos seguir os passos abaixo:

  • Passo 1. Associar e delimitar a sensação. Inicialmente, devemos perguntar ao paciente onde, no corpo, está aquela angústia. Qual o seu formato, sua cor, sua intensidade. Quanto mais detalhes, melhor. Isso auxilia na transformação da sensação difusa em algo mais concreto e, portanto, mais fácil de lidar. Automaticamente, a delimitação a nível psíquico já diminui a tendência de passar ao ato e aliviar a angústia por meio da transformação em dor física.
  • Passo 2. Desassociar. Após circunscrever a sensação, podemos usar técnicas de relaxamento em hipnose para diminuir a angústia.
  • Passo 3. Criar uma nova sensação, trazendo uma situação que seja agradável ao sujeito. Neste caso, podemos utilizar técnicas de imaginação, de sugestão direta ou o que for mais adequado ao momento.
  • Passo 4. Reassociar a nova sensação agradável.

Embora essas técnicas sejam muito eficazes no controle rápido do comportamento de automutilação, vale lembrar que o mais importante é buscar compreender o conflito profundo que mantém essa angústia. Trabalhar com a causa permite construir novas narrativas na história da relação com o próprio corpo.

Ao mesmo tempo, o terapeuta deve sempre focar na prevenção e no trabalho com os recursos disponíveis de cada paciente. Ajudar adolescentes e jovens a desenvolverem habilidades emocionais para enfrentarem as dificuldades do mundo é, talvez, a melhor estratégia de prevenção.

Se você ou alguém que você conhece está enfrentando as questões comentadas neste artigo, procure a ajuda profissional de um terapeuta.

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Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo e hipnoterapeuta pela OMNI Hypnosis Training Center. Utiliza a hipnose na área clínica, com foco em tratamento de ansiedade. Trabalha também com hipnose experimental e auto-hipnose para desenvolvimento pessoal.

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